Precisamos nos preparar para crise longa, diz Xie

22/04/2020
Andy Xie - ex-economista-chefe do Morgan Stanley para a Ásia-Pacífico, alerta para necessidade de dar apoio aos desempregados da covid-19 por um longo período

O choque da pandemia da covid-19 causou uma tal ruptura no funcionamento da economia global e das sociedades que levará mais tempo do que muitos imaginam para uma recuperação da atividade e um retorno à normalidade da vida cotidiana. É o que diz o economista chinês Andy Xie. Para ele, os problemas trazidos pelas medidas de confinamento para conter o coronavírus podem levar a uma década ou mais de reestruturação dos sistemas produtivos, num processo de desglobalização.


PhD em economia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Xie trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI) nos anos 90 e tornou-se especialista nas economias do Sudeste asiático. Em 1997, ingressou no Morgan Stanley, onde foi economista-chefe para Ásia-Pacífico do banco de investimento americano e começou a chamar a atenção por suas análises críticas e provocadoras. Já fora do Morgan Stanley e trabalhando por conta própria, ele foi um dos poucos a antecipar o colapso do mercado imobiliário nos EUA, que levou à crise financeira global de 2008-09. Na época, Xie alertou com precisão que, diante da destruição na demanda, levaria ao menos uma década para a economia global absorver o excesso de capacidade produtiva. Agora, o economista alerta que os governos nacionais precisam preparar estratégias de longo prazo para dar apoio à renda de um número sem precedente de desempregados no mundo, além das medidas emergenciais já anunciadas. A taxa de desemprego global, afirma, já estaria entre 20% e 30% da força de trabalho, de uma taxa historicamente baixa em torno de 5% no ano passado. Essa taxa pode cair um pouco no segundo semestre, à medida que os países saíam do confinamento, mas  permanecerá em dois dígitos por muito tempo, e os governos precisam se preparar para essa possibilidade, sob o risco de ver um caos social.

“Há um pensamento otimista de haverá o dia da vitória, o dia D, e que seremos felizes novamente. Não é provável que isso aconteça nesta crise ”, diz Xie.

Por causa da necessidade de se manter distanciamento social por muitos meses ainda, para evitar um retorno da covid-19, ele vê quedas mais acentuadas na economia chinesa e global, da ordem de dois dígitos
neste ano. O PIB chinês pode terminar 2020 com uma queda extraordinária de 20%. Segundo ele, passado o confinamento, boa parte da China voltou a funcionar, mas por força da ordem expressa de Pequim. “Mas as pessoas não estão aparecendo, elas têm medo.” Xie falou com o Jornal Valor Econômico, por telefone, de sua casa em Xangai. Leia os principais trechos da entrevista:


Valor: A primeira resposta dos bancos centrais à crise gerada pela pandemia foi reduzir os juros e injetar liquidez no sistema. O sr. é um crítico dessa estratégia. Por quê?

Andy Xie: Acho que o mundo ficou muito vulnerável nos últimos anos. Os BCs empurraram os governos e as empresas a tomar empréstimos para manter as economias crescendo, e por isso o nível de dívida ao redor do mundo é o maior da história moderna. Quando as economias entram em declínio, o truque é fazer com que as pessoas tomem mais empréstimos como o Fed está fazendo agora, com US$ 2,3 trilhões para emprestar para pequenas empresas. A questão é que o endividamento não deve ser a única solução. O fato é que essa crise expôs muitos problemas, e não podemos resolver todos eles apenas dizendo ‘vamos emprestar mais para sair disso’.

 

Valor: Governos, empresas e famílias já estavam bastante endividados quando surgiu a pandemia. Toda essa dívida não será um peso para uma recuperação futura?

Xie: Sim, e vamos aumentar ainda mais a pilha de dívida agora. Acho que alguns desses estímulos são mais razoáveis que outros, como o apoio à renda para as pessoas que perderam o emprego. Essa parte está ok, apesar dos governos estarem elevando a dívida. A questão é que precisamos dar apoio às pessoas que estão perdendo seus empregos e para assegurar que essa crise não se torne uma outra Grande Depressão. Também precisamos ter em mente um objetivo: para onde estamos indo. Há um pensamento otimista de que vamos nos recuperar rapidamente e que essa crise voltará para dentro da garrafa. De que haverá o dia da vitória, o dia D, e que seremos felizes novamente. Não é provável que isso aconteça. O vírus continuará entre nós por um bom tempo, e uma vacina ainda está distante. Mesmo que em algum momento essa crise diminuia um pouco, com menos pessoas ficando infectadas, o vírus continuará entre nós e impedirá um retorno à normalidade. A economia ficará numa espécie situação de depressão por um bom tempo, ao menos até o próximo ano - podendo levar mais tempo. Portanto, precisamos ter um objetivo que não seja só colocar dinheiro, emprestar um pouco mais e, então, algum dia tudo terá terminado. Não será assim.

“Estamos numa situação que nunca aconteceu. A economia global pode encolher 20% no segundo trimestre"

Valor: O que os governos devem fazer para atravessar essa crise?
Xie: O principal é proporcionar apoio à renda. Por causa da disrupção provocada pelo vírus, as pessoas não podem trabalhar. Se você não ajudar as pessoas, elas não terão dinheiro para cobrir suas necessidades e então haverá uma catástrofe. Desta vez os programas de estímulo dos governos parecem fazer bem mais sentido do que em períodos anteriores. A maior parte do dinheiro está direcionado às pessoas, seja diretamente, por meio de seguro-desemprego, ou pela complementação dos salários pagos pelas empresas. Há dois tipos diferentes de abordagem. Nos EUA, as empresas tendem a demitir, e as pessoas vão para o seguro-desemprego. Já Japão e Alemanha mantêm as pessoas empregadas, as companhias continuam pagando os salários e recebem ajuda dos governos. Além disso, nos EUA, as empresas basicamente usam os lucros para recomprar ações e também pegam empréstimos para recomprar ações. Portanto, elas não têm um colchão de capital. Veja a Toyota, ela não está procurando ajuda [do governo] e prometeu não demitir seus funcionários. Empresas como GM e Ford dificilmente conseguirão manter seus funcionários, pois não têm colchão de capital, e por isso agora precisam da ajuda do governo. Isso tem a ver com a cultura da dívida. Agora, parte dos estímulos vão para companhias como GM e outras que gastaram muito recomprando ações.

Como podemos evitar que isso volte a acontecer no futuro? Isso ocorreu com [o dinheiro dos estímulos de 2008] e está ocorrendo agora. Os governos precisam ajudar as pessoas para garantir que elas atravessem essa crise e, ao mesmo tempo, garantir que as companhias não façam o que fizeram antes: gastar todo o dinheiro quando têm e, quando não têm, recorrer à ajuda do governo.

 

Valor: Por quanto tempo os governos terão de dar apoio para as pequenas empresas e famílias?

Xie: A suposição que a maioria das pessoas têm é de que esta crise estará terminada em dois ou três meses. Nesse caso, a ajuda do governo é um tipo de medida temporária. Mas essa crise vai se prolongar por muito tempo ainda. O vírus permanecerá entre nós mesmo quando o número de infectados cair para níveis muito baixos, como estamos vendo na China. Além disso, como você pode reparar, as pessoas estão com medo, e o distanciamento social continuará. Essa será a norma por um bom tempo, pelo menos até o próximo ano. Então não estamos falando de três meses, podemos estar falando de 18 meses, ou até mesmo mais. Portanto, muitos negócios podem não sobreviver, como o setor de cruzeiros, por exemplo. Esse setor não conseguirá voltar por um bom tempo. As companhias aéreas cortaram 70%-80% de suas operações e provavelmente também não conseguirão voltar logo. Portanto, para alguns desses negócios os governos não podem só pensar em dar dinheiro, porque eles são grandes demais e não é possível sustentá-los. Os governos precisam pensar numa estratégia de como encolher drasticamente esses setores. Nesse caso o apoio deve ser na forma de treinamento, reciclagem, para que os trabalhadores possam desenvolver novas capacidade e encontrar colocação em outras áreas. Veja o setor de turismo, que emprega 10% da força de trabalho no mundo, parte dela relacionado a restaurantes, alimentação. Essa parte do negócio
precisa encolher, porque as pessoas não sairão para comer em restaurantes lotados por um bom tempo. Além de dar apoio às pequenas empresas, os governos também têm de pensar em como reduzir alguns setores. É é uma situação muito difícil. 


Valor: Haverá muito mais desemprego no futuro...
Xie: O desemprego já está crescendo rapidamente em países como os EUA. A taxa de desemprego global já está na casa dos dois dígitos, podendo chegar a 20%, a 30%. Os confinamentos podem acabar na metade do ano, então o desemprego pode começar a cair, mas não retornará para onde estava antes da crise, ficará em torno de 10% por um longo período. Os governos precisam pensar numa estratégia de prazo mais longo, de como enfrentar uma taxa de desemprego de dois dígitos, que vai durar por um bom tempo. Países do Oriente tendem a se sair melhor nesse ponto porque os governos estão mais ativos desde o
primeiro momento em pedir às empresas que mantenham seus funcionários, encontrem formas de recontratar funcionários, dar treinamento. O Ocidente tende a ir para o lado errado, então o problema pode durar mais tempo, tende a haver mais conflitos sociais.

 

Valor: Como está a China depois do confinamento?

Xie: Os números de infectados caíram de forma acentuada e agora as pessoas pensam que a
China está se reabrindo. Na verdade, o governo ordenou as empresas a reabrirem. Todos os restaurantes reabriram porque o governo deu a ordem, mas a questão é que as pessoas não estão aparecendo, estão com medo, e isso é justificável porque o vírus está em algum lugar aí fora e pode retornar a qualquer hora. Penso que algo similar se repetirá em outros países. Isso mostra porque a economia não pode se recuperar plenamente. Veja a situação da China agora: 80% das fábricas voltaram a funcionar, talvez 80% das empresas de serviços voltaram a funcionar, mas elas não estão operando com 100% de sua capacidade, estão operando bem abaixo de antes. E quando o restante dos 20% voltará a funcionar, ninguém realmente sabe, pode levar um bom tempo. Muitas das empresas que reabriram estão perdendo dinheiro, pois precisam arcar com os custos operacionais. A recuperação será difícil. Estamos numa situação que nunca aconteceu. A economia global pode encolher 20% no segundo trimestre, algo
inédito. Mesmo que no segundo semestre haja alguma melhora, ainda assim estamos falando de uma queda da ordem de 10%. O PIB global pode ter contração de dois dígitos em 2020. “Fico muito preocupado com o risco de instabilidade e isso pode levar a mais problemas além dos econômicos”.

 

Valor: Qual a sua previsão para a economia da China?

Xie: Os números da China não são sempre corretos. O governo chinês vai relatar algum pequeno número negativo no primeiro semestre, como uma queda de 1% a 2%, e uma recuperação para 5% no segundo semestre. Acredito que esses números estarão errados. Penso que haverá uma grande queda, da ordem de 20% do PIB.

 

Valor: Quais países ou regiões serão mais afetadas por esta crise?
Xie: Países como Índia, Indonésia e o hemisfério sul estão realmente sofrendo porque eles não têm a mesma capacidade dos países ricos para enfrentar essa crise. Esses países são os mais vulneráveis e podem ter instabilidade social. Europa, América do Norte e Sudeste da Ásia, áreas industrializadas, têm riqueza e instituições para lidar com essa crise. No hemisfério sul muitos países não têm essa capacidade. Fico muito preocupado com o risco de instabilidade global e isso pode levar a mais problemas além dos econômicos.

 

Valor: O sr. vê um retorno dos protestos contra a desigualdade que havia antes da pandemia?
Xie: Antes dessa crise já tínhamos uma situação econômica instável há bastante tempo, com os principais BCs sempre injetando dinheiro para manter o crescimento. Mas o principal problema é o aumento da desigualdade. A globalização levou a mais desigualdade, e a maioria das pessoas não ganha o suficiente para consumir, enquanto uma pequena parcela da população, cerca de 1%, têm tanto dinheiro que não consegue gastar. A ideia dos BCs é fazer o dinheiro extra dos ricos voltar para os pobres, por meio de empréstimos, mas isso eleva a instabilidade, porque os pobres passam a ter mais dívida. Por isso sempre fui muito crítico com os BCs, por eles encobrirem os problemas estruturais que o mundo têm enfrentado com dívida. A verdadeira solução é por meio de reformas socioeconômicas. Por exemplo, fábricas não podem simplesmente mudar de um país para outro. Você tem de pensar nas consequências sociais. As empresas não querem pensar nas pessoas porque elas são dos acionistas, mas os governos têm de intervir. Por isso, países como Alemanha e Japão são muito mais estáveis, porque nesses países as companhias têm realmente de levar em consideração o que acontece em toda a sociedade. Não podem simplesmente demitir e mudar a fábrica para onde as pessoas trabalham ganhando menos.

 

Valor: É o fim da globalização?
Xie: Sim, penso que a globalização, do jeito que era, acabou. Basicamente essa globalização das cadeias de fornecimento para minimização dos custos. Isso é muito frágil e vulnerável a um choque como esse. Quando algo assim acontece, os governos passam a querer fábricas que sejam capazes de produzir para o país e não para ter lucro. Quando a fábrica não está em seu país, não há nada que o governo possa fazer. Haverá um encorajamento para manter alguma capacidade produtiva internamente. Portanto, isso será um recuo significativo em várias frentes. As pessoas ficam falando em proteger setores de alta tecnologia. Mas vemos que não é só alta tecnologia. Veja o caso das máscaras, que se tornaram uma commodity crucial. Ter uma capacidade produtiva básica em cada país é muito importante, e as cadeias de suprimentos não podem se basear só na minimização de custos.


Valor: Mas para reestruturar setores da economia e trazer indústrias de volta, os governos terão de se endividar mais.
Xie: Isso é verdade, mas há uma diferença no tipo de dívida que torna a economia mais sustentável e a que a torna menos sustentável. Depois de 2008 muitas pessoas ficaram pobres, mas os BCs estimularam a concessão de empréstimos para manter as economias crescendo. Basicamente, eles estimularam os pobres a tomar empréstimos para comprar produtos e serviços, para que as empresas tivessem lucros, o que deixa os ricos ainda mais ricos. Esse tipo de dívida torna o problema maior no longo do tempo. Agora, quando você faz um investimento para reativar a economia, como para diminuir setores que precisam encolher,
dar impulso a outros setores para tornar a economia mais sustentável no longo prazo, de forma que não precise tomar mais empréstimos no futuro, essa dívida faz mais sentido e é válida. Mas o nível de  endividamento de muitos países já era muito alto para ser sustentável. Portanto, em algum ponto, talvez alguma inflação seja inevitável. Provavelmente veremos uma década ou mais de reestruturação, de desglobalização, acompanhada por alguma inflação que vai reduzir essa dívida, como nos anos 70. Essa é a situação econômica para a qual talvez estejamos rumando.


Valor: Mas neste momento as taxas de inflação estão caindo.
Xie: Sim. A questão é que as taxas de inflação estão baixas há bastante tempo, principalmente por causa da produção chinesa. A China se tornou a fábrica do mundo, e o custo de produção na China continuou caindo. É por isso que os BC têm conseguido manter taxas de juros tão baixas por tanto tempo. Com este choque, as pessoas não têm dinheiro para gastar, e isso cria uma pressão para queda dos preços. Mas, quando a ajuda dos governos começar a chegar, você basicamente terá muitas pessoas que não estão trabalhando, mas recebendo ajuda dos governos para cobrir seus gastos. Então, alguma inflação será inevitável. 

 

Valor: O sr. defende um Estado mais atuante e proteção social.
Xie: Sim, essa crise relembrou as pessoas de que os Estados nacionais são muito importantes. Quando há uma crise, a ajuda, a responsabilidade fica dentro das fronteiras. Se esse é o caso, a economia tem de se ajustar a esse paradigma, e o capital não pode correr mundo afora em busca de custos mais baixos de produção para maximizar os lucros. Isso será uma reestruturação da economia global.

 

Valor: Em 1999 o sr. dizia que a economia global era como uma bicicleta, na qual os EUA (a roda traseira) proporcionavam impulso para o forte crescimento da China (a roda dianteira). E agora?
Xie: Nos últimos 20 anos a economia global basicamente girou em torno dessa ligação entre EUA e China. Os EUA proporcionando o consumo, a China proporcionando a produção, e outros países meio que participando disso, como os emergentes, vendendo commodities, e os europeus e o Japão, vendendo produtos. Alemanha e Japão vendem equipamentos e carros à China. França e Itália vendem artigos de luxo. Com isso, tivemos um aumento na divisão do trabalho no mundo. Agora, com essa crise, na verdade bem antes da crise, havia um choque direto entre China e EUA e muitas questões políticas voltaram à tona. Meio que voltamos à situação de cada um por si, e há menos confiança. Todos querem ter algum colchão. Estamos indo para uma situação de cada um por si. 

 

Por Suzi Katzumata — De São Paulo

Fonte: Valor Econômico

Foto: Anindito Mukherjee/Bloomberg

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